segunda-feira, 2 de abril de 2012

A INTERPRETAÇÃO

     A música é considerada a linguagem universal. Mas qual é o segredo que faz com que a obra de um compositor russo, como Tchaikovsky, viaje por quilômetros durante dois séculos e seja aclamada por uma platéia de jovens em uma comunidade pobre da America Central?
    Sabemos que a música é uma poderosa forma de comunicação. Mas o que, exatamente, ela comunica? A música não comunica coisa alguma. A música é um veículo de comunicação, não a finalidade em si. Ela, como todas as formas de arte, é um transporte usado para levar ao público uma grande mensagem de verdadeiro simbolismo universal. Mas qual é essa mensagem? A grande mensagem que a música carrega é a emoção de seu intérprete.
    Os sentimentos aproximam nossa interpretação musical de nossa própria história de vida. Então, criamos relações entre nossos sentimentos e algumas músicas ou trechos musicais. Na verdade, a interpretação é um processo de fusão do artista com a obra. Obra e artista revelam-se um ao outro ao longo da estrada e, neste intercâmbio, ambos são transformados. Através da obra, o artista se desenvolverá e desenvolverá a obra num processo de realimentação. O intérprete recriará a obra à sua própria imagem. O verdadeiro intérprete sempre será um criador.
     A interpretação é um longo caminho. O intérprete deve trabalhar para se livrar da obra como algo externo a si. Seu corpo não pode oferecer resistência a ela. Ele precisa incorporá-la. Então, ele deve trabalhar para superar os aspectos técnicos. Sua mente não deve se fechar nos aspectos formais e estilísticos. Assim, ele deve compreender e absorver estes conceitos de tal maneira que não lhe pareçam mais importantes. Quando isso acontecer, ele poderá se dedicar à grande mensagem que levará ao público. Deste modo, os sons, as palavras e os gestos serão como manifestações orgânicas e legítimas das experiências vividas durante a viagem.
     Mas o interprete não pode estar aprisionado em seus próprios sentimentos durante sua interpretação. O que o intérprete faz é prestar um depoimento emocionado sobre os sentimentos do personagem. Na arte, precisamos transcender nossa vivência particular. Sim, precisamos fazer contato com nossos sentimentos para, em seguida, nos distanciarmos deles. Só assim conseguiremos fazer contato com a emoção, uma das formas de expressão de nossa alma. Para muita gente, essa palavra pode remeter a uma conotação religiosa que a ligaria à barbárie, à opressão, à perseguição, à manipulação das massas, inadmissível depois de Marx. Mas, filosoficamente, a alma representa a parte espiritual do homem e se refere ao princípio que dá movimento a tudo o que é vivo. Mas na arte usamos esse termo o tempo todo e todo artista tem uma percepção clara da existência de sua alma porque ele faz contato constante com sua emoção. Essa é apenas uma palavra. Mas qual seria a melhor palavra para definir o estado de pré-transe que caracteriza todo processo criativo? Qual seria a melhor palavra para expressar o que se apodera do intérprete quando Nietzshe se refere a ele como um “médium da música através do qual o único Sujeito verdadeiramente existente celebra a sua redenção através da aparência”?  Sim, quando você está inspirado, fica tomado pela emoção. É ela que faz com que o artista tenha uma percepção clara de sua alma. Nada é tão humano quanto ela e nada, como ela, consegue nos redimir de nossa própria forma físico-mental. Ela nos leva a outra esfera de percepção e interpretação da obra e de nossa própria vida. A emoção é um estado de suspensão que pode nos fazer chorar ou sorrir, mas está muito alem dos julgamentos mentais que a classificariam como alegre ou triste.
    A emoção é anterior à forma. Por não ter forma nem julgamento, ela rompe as barreiras formadas pelo tempo, pelas discrepâncias ideológicas, pelas limitações culturais e diferenças sociais que poderiam aprisionar uma obra em sua construção formal. A emoção é libertadora e transcende a própria obra. Só ela pode atropelar a intelectualidade, penetrar em diferentes estados de ânimo provocados pelas circunstancialidades e particularidades de diferentes indivíduos e fazer a alma do artista se comunicar diretamente com a alma do público. Os grandes intérpretes não sentimentalizam as platéias, eles emocionam. O sentimentalismo é brega; a emoção é transcendente. Mas ninguém precisa se preocupar com isso. Brega e chique também são julgamentos particulares, circunstanciais e transitórios.

(Extraido do linvro "Música, Mente, Corpo e Alma - Interpretação: a Comunicação Através da Música, de Monique Aragão)

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