A música é considerada a linguagem universal.
Mas qual é o segredo que faz com que a obra de um compositor russo, como
Tchaikovsky, viaje por quilômetros durante dois séculos e seja aclamada por uma
platéia de jovens em uma comunidade pobre da America Central?
Sabemos que a música é uma poderosa forma de
comunicação. Mas o que, exatamente, ela comunica? A música não comunica coisa
alguma. A música é um veículo de comunicação, não a finalidade em si. Ela, como
todas as formas de arte, é um transporte usado para levar ao público uma grande
mensagem de verdadeiro simbolismo universal. Mas qual é essa mensagem? A grande
mensagem que a música carrega é a emoção de seu intérprete.
Os sentimentos aproximam nossa interpretação
musical de nossa própria história de vida. Então, criamos relações entre nossos
sentimentos e algumas músicas ou trechos musicais. Na verdade, a interpretação
é um processo de fusão do artista com a obra. Obra e artista revelam-se um ao
outro ao longo da estrada e, neste intercâmbio, ambos são transformados.
Através da obra, o artista se desenvolverá e desenvolverá a obra num processo
de realimentação. O intérprete recriará a obra à sua própria imagem. O
verdadeiro intérprete sempre será um criador.
A interpretação é um longo caminho. O intérprete
deve trabalhar para se livrar da obra como algo externo a si. Seu corpo não
pode oferecer resistência a ela. Ele precisa incorporá-la. Então, ele deve
trabalhar para superar os aspectos técnicos. Sua mente não deve se fechar nos
aspectos formais e estilísticos. Assim, ele deve compreender e absorver estes
conceitos de tal maneira que não lhe pareçam mais importantes. Quando isso
acontecer, ele poderá se dedicar à grande mensagem que levará ao público. Deste
modo, os sons, as palavras e os gestos serão como manifestações orgânicas e
legítimas das experiências vividas durante a viagem.
Mas o interprete não pode estar aprisionado
em seus próprios sentimentos durante sua interpretação. O que o intérprete faz
é prestar um depoimento emocionado sobre os sentimentos do personagem. Na arte,
precisamos transcender nossa vivência particular. Sim, precisamos fazer contato
com nossos sentimentos para, em seguida, nos distanciarmos deles. Só assim
conseguiremos fazer contato com a emoção, uma das formas de expressão de nossa
alma. Para muita gente, essa palavra pode remeter a uma conotação religiosa que
a ligaria à barbárie, à opressão, à perseguição, à manipulação das massas,
inadmissível depois de Marx. Mas, filosoficamente, a alma representa a parte
espiritual do homem e se refere ao princípio que dá movimento a tudo o que é vivo.
Mas na arte usamos esse termo o tempo todo e todo artista tem uma percepção
clara da existência de sua alma porque ele faz contato constante com sua
emoção. Essa é apenas uma palavra. Mas qual seria a melhor palavra para definir
o estado de pré-transe que caracteriza todo processo criativo? Qual seria a
melhor palavra para expressar o que se apodera do intérprete quando Nietzshe se
refere a ele como um “médium da música através do qual o único Sujeito
verdadeiramente existente celebra a sua redenção através da aparência”? Sim, quando você está inspirado, fica tomado
pela emoção. É ela que faz com que o artista tenha uma percepção clara de sua
alma. Nada é tão humano quanto ela e nada, como ela, consegue nos redimir de
nossa própria forma físico-mental. Ela nos leva a outra esfera de percepção e
interpretação da obra e de nossa própria vida. A emoção é um estado de
suspensão que pode nos fazer chorar ou sorrir, mas está muito alem dos
julgamentos mentais que a classificariam como alegre ou triste.
A emoção é anterior à forma. Por não ter
forma nem julgamento, ela rompe as barreiras formadas pelo tempo, pelas
discrepâncias ideológicas, pelas limitações culturais e diferenças sociais que
poderiam aprisionar uma obra em sua construção formal. A emoção é libertadora e
transcende a própria obra. Só ela pode atropelar a intelectualidade, penetrar
em diferentes estados de ânimo provocados pelas circunstancialidades e
particularidades de diferentes indivíduos e fazer a alma do artista se
comunicar diretamente com a alma do público. Os grandes intérpretes não
sentimentalizam as platéias, eles emocionam. O sentimentalismo é brega; a
emoção é transcendente. Mas ninguém precisa se preocupar com isso. Brega e
chique também são julgamentos particulares, circunstanciais e transitórios.
(Extraido do linvro "Música, Mente, Corpo e Alma - Interpretação: a Comunicação Através da Música, de Monique Aragão)
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